Título e autoria
Carne Aval – JP+Moskow
“Carne Aval” é uma amalgama de perguntas sobre democracia, trabalho e raça feita por uma dupla de fotógrafos do carnaval carioca. Sua realização só é possível através de uma bolsa como a Zum e isso é um elemento objetivo, componente e redundante. JP+Moskow quer entender quem são e como atuam as personagens presentes no fértil cenário do carnaval do centro do Rio de Janeiro. Quem transita entre a Av. Presidente Vargas e a Cinelândia, por quatro dias, a trabalho ou lazer, como foliã ou artista; entre shows de massas, concursos de bate-bola, no Cacique de Ramos e blocos de cortejos? Quem são essas pessoas e que lugar ocupam nesse liquidificador que dizem ser o caldo que dá na sopa da democracia racial brasileira?
Apresentação
Não se sabe ao certo quem possui razão, mas Recife/Olinda, Salvador e a cidade do Rio de Janeiro disputam qual foi o motor da maior criação de nosso povo pós-independência: o carnaval como conhecemos atualmente. Aquele surgido nos 50 anos finais do século XIX e que nos presenteou com o maracatu, o afoxé e o samba, além de uma forma diferente do povo se relacionar com a cidade.
Quem defende cada uma dessas cidades conta a mesma coisa: em sua origem recente, o carnaval tem como característica fundamental o incremento da negritude e do povo trabalhador citadino, suas danças, músicas e contornos comportamentais. Assim, introduziu ao que veio da Europa, como forma de diversão das classes abastadas, a exposição pública na urbe de sua religiosidade, corpos e cultura, antes reservadas ao campo e bairros pobres. A ida do panteão de orixás, entidades e eguns às ruas, junto ao pandeiro, atabaque e cantos, ampliou e regionalizou a inversão de papeis sociais no carnaval, com ex-escravizados e seus descendentes, geralmente pobres, transvestidos de nobres reis e rainhas africanas, homens e mulheres livres, em alegria, evidenciando por um lado a subversão dos oprimidos, mas por outro, o racismo latente das elites do início do século XX.
Logo após a proclamação da república, junto com ideia eugenista e racista do embranquecimento da população brasileira, surgiu o debate sobre o que deveria representar e ser representado no carnaval carioca. Para a elite, que via o país em processo de construção, manifestações como o batuque e a irreverência, fruto das manifestações de origens africanas e popular, deveriam ceder lugar a desfiles de carros e adereços que marcassem a prosperidade de classe, além de bailes exclusivos, onde só aquelas pessoas de determinada condição e origem poderiam participar. A intenção era apagar a presença negra do espaço público e afastar seus filhos e filhas deste contato. Não por acaso, o samba, ritmo afro-brasileiro e dos bairros operários, foi seguidamente criminalizado até décadas mais tarde.
Os registros fotográficos do carnaval carioca da primeira metade do século XX evidenciam bem essa estrutura. Nas décadas iniciais, a manifestação se coloca elitizada e branca. Quando retratados, negros figuram como músicos trabalhadores e não, foliões. A diversão era exclusiva. A partir de meados de 1930, as imagens que refletem o carnaval no Rio passam a registrar também os desfiles e festejos negros, período em que surgem as escolas de samba pioneiras (Estação Primeira de Mangueira, Oswaldo Cruz, Vizinha Faladeira, Para o Ano Sai Melhor e Cada Ano Sai Melhor), blocos e cordões.

Nas décadas seguintes, a imprensa, as rádios e o interesse político ajudaram a aproximar as elites do mundo popular do carnaval. Escolas e blocos passaram a ocupar o centro da cidade. De todos os cantos, as pessoas chegavam à pé, em carros, ônibus e de bonde para os desfiles.
Mais tarde, entre o final dos anos 1970 e a primeira década de 2000, sobre a égide da TV e da indústria fonográfica e, com o samba já reconhecido como patrimônio nacional, o mito da democracia racial se fez presente no imaginário brasileiro, ao vivo, em transmissão nacional, ano a ano, direto da Sapucaí. O carnaval eletrônico trouxe enredos afros campeões de fato e no coração do público. Negros e negras desfilaram para o país, cantando suas glórias, religião e tradição, sendo exaltados como compositores, intérpretes e sambistas, desejadas como a “Mulata Globeleza” e ovacionados, como o gari Renato Sorriso que literalmente sambou enquanto limpava a Marquês de Sapucaí.
Já nos últimos 15 anos, é inegável o resgate do carnaval de rua no centro do Rio, através de inúmeros blocos de cortejo surgidos neste período, dividindo o espaço com atrações tradicionais como o Cacique de Ramos e de massas, como o Cordão do Bola Preta, Bloco das Poderosas e outros, que levam mais de um milhão de pessoas para essa região da cidade durante o feriado. Ao mesmo tempo, houve uma centralização de tradições como os concursos de bate-bolas e clóvis, apresentações de grupos de afoxé e outras manifestações afro, derivados dos morros centrais e zona sul, mas tambén, das zonas norte e oeste, com a promoção de eventos patrocinados pelo poder público na região central, especificamente, na Cinelândia e Av. Chile.
A proposta
“Carne Aval” é um projeto que investiga a leitura de classe e racial das pessoas e coletivos que compõem o carnaval no centro do Rio de Janeiro. Sua pergunta é: quais são as posições dentro do ecossistema da folia que determinados corpos ocupam e o que isso diz sobre a ideia de democracia racial e social carioca e do próprio carnaval, já que o centro do Rio reúne variados formatos e maneiras de se “viver” a festa do povo?
O objetivo do projeto “Carne Aval” é investigar, por óticas díspares, se há diferenças de classe e raça no ecossistema que compõe aquilo que seria a comprovação da democracia racial e popular, porém que parece reproduzir o binômio histórico “servir” e “ser servido”, além da não mistura entre categorias.












O projeto se originou de um incômodo empírico dos co-autores que observaram, enquanto foliões e trabalhadores, como as funções exercidas durante o carnaval no centro se distinguem pela cor da pele, idade e território. Por exemplo, a imensa maioria dos participantes do citado resgate dos blocos de cortejo – músicos, musicistas, pernaltas e foliões/ãs, é de pessoas brancas, jovens entre 20 e 40 anos, de classe média e vindas da zona sul sociológica. Já ambulantes, profissionais terceirizados e servidores públicos, como policiais e membros da SEOP, são em sua maioria negros e periféricos, que abdicam da folia para trabalhar. No caso dos vendedores, muitos ainda adolescentes e tantos outros, já aposentados. Ao mesmo tempo, há uma separação demográfica nítida do público que participa dos cortejos e dos que estão nas manifestações de massas como o Codão do Bola Preta e nos concursos de tradições, como dos bate-bolas.
JP+Moscow realizam, sem qualquer combinação, experiências estética e etnográfica durante a época do carnaval carioca. Seja na Sapucaí ou nas ruas, ao vivo ou de forma híbrida, por anos estiveram de plantão cobrindo o evento para jornais, sites e redes sociais. Neste ano, registraram blocos de cortejo no Centro, Estácio, Tijuca e Aterro do Flamengo. Foram a trabalho em ensaios fechados, públicos, desfiles e cortejos antes, durante e depois do carnaval.
Qual é a carne que dá aval à folia?
“Carne Aval” busca juntar a experiência etnográfica intuitiva de anos anteriores, com o registro objetivo dessas posições no ecossistema das manifestações carnavalescas do centro do Rio, em 2026. O projeto pretende fazer a cobertura dos eventos com os blocos de cortejo, os de massas da Presidente Vargas, os desfiles da Av. Chile e os concursos da Cinelândia. Para assim, conseguir analisar o objeto de investigação: quais perfis demográficos ocupam as posições no ecossistema do carnaval carioca do centro? Sejam estas posições diferenciadas, a priori, entre:
a) Artística
b) Laboral
c) Foliã
Categorizando as manifestações do centro como:
1) Blocos de massas, em palcos, como o Cordão do Bola Preta.
2) Blocos oficiais e não-oficias, em cortejo pelo centro.
3) Escolas e grupos que desfilam na Av. Chile, como o Cacique de Ramos.
4) Concurso de grupos de bate-bolas e clóvis na Cinelândia.
Assim, se quer saber, quem são os artistas, os trabalhadores e os foliões nos blocos de massa? Quem são os que ocupam essas posições nos concursos de bate-bolas? Os que estão nos blocos de cortejo? E os da Av. Chile?
Por que uma dupla?
A intenção de ser realizado por dois olhares tem como premissa a cooperação, mas sem negar a contraposição de fotógrafos com origens distintas, que há anos fazem parte do ecossistema do carnaval como trabalhadores da comunicação. Ambos se encontraram, por suas particularidades, no olhar para aquelas pessoas que compõem a manifestação no centro da cidade também como trabalhadoras. Porém, como sempre estavam na folia com pauta definida, sem que isso fosse exatamente o objetivo inicial do briefing, o olhar sobre o incômodo acabava sempre ficando de soslaio, incompleto e parcial. Mais um suspiro que uma comprovação.
Portanto, ao se tornar uma busca financiada pela Bolsa Zum terão a oportunidade de substituir as diárias de trabalho pela pesquisa fotográfica. E assim, comprovar na prática do olhar e, no registro de fato, se há, onde há e como se manifesta a democracia racial e social no território mais fértil, sem ser o único, do carnaval carioca.
Cronograma

Orçamento
Labor mensal (2 x 8 meses): R$ 32.000
Equipamentos fotográficos (aluguel e aquisição de câmeras, lentes e outros acessórios): R$ 18.000
Assinatura pacote Adobe Fotografia: R$ 2.500
Diárias de execução (2 x 4): R$ 12.000
Estagiária (o): R$ 4.000
Impressão: R$ 5.500
Montagem/Desmontagem: R$ 4.000
Transporte e extras: R$ 2.000
TOTAL: R$ 80.000
Resultado Final
Serão entregues 20 obras impressas em papel barita, em dimensão 1,2m X 0,80m. As peças serão selecionadas a partir das conclusões apontadas pela pesquisa etnográfica Carne Aval e que possam ilustrá-las. Além das peças, será entregue um ensaio assinado por JP+Moskow sobre o contexto da proposta e o caminho percorrido até a sua finalização.
Currículos
Moskow
Sou Moskow. Fotógrafo há 26 anos. Minha imagem não é produto, nem técnica solta. É corpo em estado de presença, escuta e intenção. Fotografo porque preciso tocar o mundo. Porque preciso entender o que pulsa nos outros — e em mim.
Vim do fotojornalismo. Aprendi a documentar o real. Mas logo entendi que o real também inventa, transborda, sangra, reza. Hoje, minha fotografia caminha entre o documental e o poético.
Entre o rito e o cotidiano. Entre o corpo e o invisível. Meu território é o Brasil profundo. A cultura popular. A infância. O espetáculo. O silêncio.
Já fotografei artistas em capas de revista. E crianças em becos inventando mundos. E em cada rosto, famoso ou anônimo, busquei o mesmo: presença.
Não acredito em imagens neutras. Acredito na ética do olhar. Acredito na arte como gesto político, mesmo quando suave. E acima de tudo, acredito que a fotografia não serve pra explicar. Serve pra afetar. Serve pra lembrar. Serve pra escutar.
JP
Jornalista e fotógrafo, formado em Comunicação Social (UFJF), especialista em redes sociais e coberturas ao vivo de atividades e eventos urbanos. Prestou serviço para diversos veículos e fez parte da equipe de comunicação de instituições como Fundação Osquestra Sinfônica Brasileira, PSOL Carioca e Estácio de Sá, entre outras. Confira o currículo/portfólio detalhado em: jpdeoliveira.com/cvjp
Portfólios
Moskow – moskow.art.br/
Do lúdico ao lúcido

Carnaval em Estado Bruto – a rua


Cultura Popular Brasileira

Vertigem de alegria

Agora uma séria

JP – jpdeoliveira.com
.50mmdecarnaval




















Bispo do Rosário – 30ª Bienal de Artes/SP













Música















Orquestra Sinfônica Brasileira









Parangolé Ciberpunk






Movimento



Estudos de Velocidade
















Um Dia na Praia de Antigamente











DOCUMENTOS PESSOAIS
JP

Moskow

