A Nova Bad

A vida é um desespero e não tem como negar. A maneira como a gente se organiza faz com que seja ainda mais desesperadora para alguns tipos sociais que outros. Isso também é inegável cada vez mais. Imagina você saindo do seu trabalho e de repente, toma um tiro na garupa do mototaxi? Seria porque você é preto, pobre, trabalhador? Seria por isso? Agora, imagina você em seu trabalho, um dia comum, pela manhã e de repente, uma bala encontra seu corpo, que tomba, que morre, que deixa filhos e marido? Mas você é branca, funcionária pública, médica. Todavia, a área que você trabalha é conflagrada, a polícia e o bang-bang acontecem invariavelmente. Afinal, é área de gente pobre, negra, trabalhadora. A vida é um desespero ainda maior no Rio de Janeiro.

Clique nas fotos para melhor visualizá-las

*este ensaio é uma homenagem à Gisele Mendes de Souza e Mello, mãe do amado Cadu. Escrevi o mesmo logo após o ocorrido: sua mãezinha foi morta dentro da unidade hospitalar em que trabalhava:

Esse pássaro bonito é o Cadu, Caduzinho, Cajuzinho. Um querido defensor dos direitos humanos que até ontem dedicava sua vida a diminuir a dor dos outros, principalmente, de mulheres que perderam seus filhos, companheiros e pais para a mão assassina do estado elitista e racista. O massacre cotidiano que crava o destino no peito de jovens negros e de suas mães, ontem, transformou a vida desse romântico (no sentido mesmo do movimento histórico do século XIX). Agora a luta é a sua própria vida. No daqui pra frente, seu coração se faz também para diminuir a própria dor, de seu irmão, pai e demais familiares.

Nós que lidamos todos os dias com nomes e histórias que quase sempre são ignoradas, sabemos o quanto a sociedade adormecida em sua hipocrisia e racismo se apontará chocada com a morte de uma médica da Marinha. Aqui não tenho como intenção fazer balanço ou dizer o que vale mais quando sabemos que o problema é o mesmo: o sistema capitalista, patrimonialista e entreguista não superou ainda os tempos de escravização e oprime e odeia pobres e pretos. E para isso mata e fere todos os dias onde vivem e trabalham.

Enquanto matar na favela só parecer caso de polícia, os donos do poder e das palavras continuarão reportando preconceitos que multiplicam ainda mais preconceitos. Temos que nos unir para acomodar a dor de todas as pessoas que perderam seus parentes e agora sobretudo, abraçar esse pássaro pra que continue a rondar os céus em busca de liberdade para os que se encontram cativos e à mercê da máquina de moer gente de Castros e Derrites da vida.

Cadu, querido, um forte abraço. Força, camarada. Estamos aqui para aliviar também a sua dor. Hoje e sempre.

Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro, 01 de março de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

Deixe um comentário