As almas de Jorge

Quando eu era moço, minha vó Cida me mandou entregar um bilhete escrito por ela mesma, mas que tinha vindo pelo seu santo. Era uma oração de proteção. Um trecho da reza pra São Jorge:

“Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebram sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar”

Dois mil e vinte e quatro foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Ele, inclusive, demorou para passar até mesmo quando já estava em 2025. Tive que tirar das profundezas da minha alma o vigor para não desistir. Contei com o apoio daquelas e daqueles que me amam, mas também, da medicina. Nunca fui afeito a remédios, mas em função de uma depressão que não me deixava e o medo de encarar o futuro, acabei indo pela primeira vez em décadas ao psiquiatra. Na primeira semana, o medicamento me fez o efeito contrário ao que se pretendia: me deixou ainda mais desesperado e triste. Além disso, fiquei doente e sozinho em casa. Foram três dias pelos quais não desejo pra ninguém.

Inicialmente, o que me fez sair dessa situação foi a necessidade de viajar para encontrar minha filha mais nova, mas também o efeito progressivo do remédio. Durante minha estadia fora do país, acabei perdendo as cápsulas e não tomei mais. Entretanto, alguma coisa me fez reagir e mesmo diante à incerteza do que seria o depois dessa viagem, me senti fortalecido com o amor da minha pequena. Cheguei de lá com a ideia de que o amanhã seria o amanhã e encarar a vida e suas nuances era importante não só para mim, mas pra ela também. Assim, o ano virou, veio janeiro e logo na primeira semana fui assaltado à mão armada bem perto da minha casa. Não desanimei nem quis me mudar. Além disso, percebi que não conseguiria me realocar facilmente no mercado de trabalho. Afinal, não queria mais estar onde estava antes e ao mesmo tempo, fiquei anos imerso na política partidária e disperso de labores mais convencionais na área de comunicação.

Sem dinheiro, morando no Rio, mas com uma vontade de vida enorme, tive que dar um jeito. Com a ajuda de algumas pessoas, acabei me voltando para a fotografia, arte que tinha esquecido que exercia. Já havia 10 anos, os anos da política, que nela não investia. E, ainda que não tenha me firmado nessa área, o que ela me proporcionou nesses últimos três meses fez com que aquela época de tristeza fosse mesmo um tempo necessário de reflexão e morte de um João passado que não queria mais ser.

A Zona do Mangue de Jorge

E das coisas mais fantásticas que a fotografia e sua busca me deram foi conhecer um bloco de carnaval que mexeu demais com minhas emoções e realçou minha sensibilidade de forma nítida, me dando vida, mas também, dando alegria a quem se deparava com a objetiva da câmera. Conheci o Zona do Mangue em fevereiro, no ensaio aberto do dia 16. Não estava ali contratado nem pretendia vender as fotos que fizesse. Era mesmo um exercício, uma terapia e um desafio para sair da inércia de ideias que me encontrava até então. As fotos e o texto do relato acabaram tocando os componentes do bloco e o retorno deles me deu vida e coragem para seguir perseguindo esse “novo” caminho.

Assim, recebi com muita alegria a notícia de que o Mangue sairia no São Jorge, 23 de abril, novamente no Estácio. Decidi não levar minha câmera, pois queria mesmo era aproveitar o momento pra conhecer aquelas pessoas que me deram um novo sabor pela vida. Todavia não consegui ficar inerte e com o celular em mãos aproveitei o sol pra fotografar aquelas almas tão devotas ao carnaval e ao santo padroeiro do bairro, seja ele Jorge ou Ogum. E mais uma vez, o que me encantou foi a felicidade das crianças e moradores que se encontravam com o bloco. Isso não é pouca coisa. É muito. É a força invisível que nos protege de nós mesmos. É o que faz as armas, flechas e facas caírem inertes enquanto a vida prossegue sendo perigosa.


Rio, 24 de abril de 2025
@jotapedeoliveira

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