O “Rio que me sangra o céu” foi uma deriva decorrente das angústias de viver em uma cidade assolada pela contradição e as buscas pessoais e coletivas que sempre me afligiram. Ele data entre 2014 e 2016. Segue trecho do texto original baseado nas lições deixadas por Sidarta Gautama:





Ao sair da selva em direção à cidade, Buda Sakyamuni subiu à barca do sábio jangadeiro. A ida e a volta tiveram um elemento comum: o rio. Ao atravessá-lo pela primeira vez, chegou à cidade e nela se envolveu emocionalmente – se apaixonou, foi ferido, teve ira e passou pelo medo. A relação direta com a cobiça e o aprisionamento social mostraram ao príncipe os deveres de um espírito para se libertar – estar longe das ilusões. Com muita dificuldade, Sidarta Gautama se livrou dos laços conquistados em sua estada na cidadela – teve status, poder e prazer, todavia também se horrorizou e envergonhou-se. Por isso, quando decidiu ser firme em seu interior e sair dali de uma vez por todas, não era ainda sua iluminação, mas sua honra e sua dor os combustíveis. Só se deu conta da vida quando parou sobre a jangada e ali, no caminhar leve das águas, percebeu que era ele o homem do leme e, a multidão, o barco. Mesmo sendo capaz de manejar determinados caminhos, forçar a jangada em uma corrente era inútil e perigoso e, por outro lado, deixar de estar presente poderia causar derivas e naufrágios.
Ao passar novamente pelo rio, depois de suas frustrações e êxtases, Sidarta viu a possibilidade de reconhecer em si um ser de atuação sobre a própria vida e para a vida das outras pessoas. Percebeu em princípio que as ações se tornam propulsões de outras ações na realidade e que esse efeito seria seu desafio.







Se Buda meditou estando no rio, este trabalho coloca as águas sobre nossas cabeças, como se vivêssemos em uma espécie de aquário em águas poluídas. Não que a solução esteja no alto das águas do rio que passa no céu. É bem provável que esteja, sim, no ribeirão que passa por dentro e é de sangue e tem a cor vermelha. O céu, como o rio para o Buda, é o espelho. Assim, não é solução, nem só desejo.