
Cobertura etnográfica de três blocos no centro do Rio – pré-carnaval de 2025
O carnaval é um fenômeno que é percebido. É material. Neste sábado, 15, tinha me programado para fazer minhas primeiras fotos durante a manhã, apesar dos avisos de que seria na parte da tarde as melhores atrações do dia. Botei na cabeça que a luz poderia me ajudar. O primeiro desafio foi conseguir chegar ao bloco. Escolhi como primeiro o @ibrejinha, que sairia do Museu do Amanhã, às 8h. Porém, o trânsito no centro do Rio estava completamente caotizado, justamente, porque o carnaval se fez presente. Muito menos pelos blocos na região portuária, mas pela atração de massas que lotou a primeiro de março, Leo Santana.
Entre a ida da Lapa e a chegada ao caos na Presidente Vargas, recebi uma mensagem em um grupo que mostrava o @lolodeouro no Largo de Santa Rita, perto da onde estava preso. Desci do carro e fui andando na direção da rua Acre. Afinal, caso não tivesse bloco por ali, chegaria à praça Mauá. Realmente, não havia qualquer rastro e apertei o passo para alcançar, então, o Ibrejinha. Uma vez na Mauá, vi que ambos estavam por ali. Se agora era o Loló que se encaminhava para o Museu do Amanhã, aquilo que parecia o Ibrejinha, estava navegando pelo Boulevard Olímpico. Decidi manter o foco e fui atrás deste.
Foi aí que entendi que o fato de ser pela manhã e ter luz não era o suficiente. O Ibrejinha ía em direção aos armazéns, de costas para o sol das 9h. Portanto, percebi que estava totalmente no contra-luz e bota luz nisso. O sol gritava nas pedras claras do Boulevard. Além disso, o bloco estava cheio o suficiente para que fosse difícil me aproximar dos músicos. Uso sempre uma .50mm e ela não é lá um primor para fotos mais abertas. Ela gosta de detalhes, sutilezas. Tive que bolar uma estratégia para que as sombras e a multidão não me atrapalhassem tanto: esperar o bloco passar e tentar pegar recortes. E aí, entra a figura do maestro. Aquela pessoa que está de frente para os sopros/percussão. Ou seja, no caso, com o sol lhe banhando o corpo, enquanto os musicos e musicistas permanecem de costas, com seus rostos à sombra.

O que seguiu não foi muito diferente. Realmente, certa frustração pela minha própria ignorância. Parei para tomar um fôlego, encontrei pessoas e quando estávamos trocando uma ideia, vimos um imigrante andido tomar uma enquadrada do Centro Presente (PMERJ) do nada, no nosso lado. Houve uma desconfiança nata no grupo e um dos guardas bradou, “quer fazer o meu trabalho? Isso aqui é por vocês”. Apesar da raiva, partimos ao perceber que a cena tinha diminuído a tensão e o hermano seria liberado. O bloco, então, saiu do sol e virou na primeira esquina após a sede da polícia federal. Ali, consegui melhores fotos, mas nada demais.






De repente, como só no Rio, um outro bloco, bem menor, porém uniforme, com instrumentistas, pernaltas e público vestindo vermelho passa no Boulevar – o verdadeiro legado olímpico cultural. Não poderia ser outro que não o @naomonogamiagostosodemais. E no sentido contrário ao anterior. Ou seja, com o sol batendo de frente com o bloco. Perfeito, do nada, encontrei o que procurava. Ou melhor, o bloco me achou.





















Decidi partir pra casa. Porém, quando estava me aproximando da estação do VLT, vi uma imensa cabeçada debaixo do Museu do Amanhã. Era o Loló. De novo no contra-luz e muita gente. Tive que usar o laboratório digital (Lightroom/Adobe) para diminuir de forma drástica a exposição (isso aconteceu nos outros blocos também).






O interessante foi que em determinado momento, quando subi na plataforma do VLT para ter uma visão maior do bloco, consegui tirar algumas fotos mais personalizadas. Inclusive, um casal me pediu para registrar o momento. Foi difícil acertar a luz. O cara perguntou meu instagram. Falei. Ele disse que morava com um João e que iria se lembrar depois.


O carnaval é percebido e performático, mas também livre. Em um momento ou outro, me questionei sobre estar com uma câmera intervindo na liberdade das pessoas, registrando momentos em que estão desprotegidas das máscaras ou mesmo, com máscaras que aparecem só de vez em quando. Porém, a sociedade narcísica é também um fato e acho que todos enfrentamos dentro e fora da gente, uma batalha entre privacidade e vaidade.








E ainda há aqueles que invisíveis, fazem com que tudo possa seguir adiante, mesmo enfrentando os conflitos de classe e raça inerentes à nossa cultura urbana. Ontem, no ensaio do CorTaylor, um garoto pediu pra tirar foto dele. Ele estava com um carrinho de bebidas e ficou de costas. Demorei a entender a realidade. Ficou bem empolgado com a foto, mesmo sem que seu rosto aparecesse. Bastava saber que era ele ali e que iria sair em uma das páginas do carnaval.
Hoje, como sempre, dava pra entender pela cor da pele quem estava trabalhando e quem estava se divertindo. Em cada bloco uma porcentagem diferente, isso é verdade, mas ainda assim, com diferenças acentuadas. Outro ponto marcante também tem a ver com a faixa etária. As pessoas mais velhas que estavam nos três blocos, sem dúvida, eram trabalhadoras e trabalhadores sobretudo negras. Imaginar que estas mesmas pessoas têm o perfil daquelas, também trabalhadoras, que sofreram com o incêndio essa semana na zona norte, nos coloca uma necessidade urgente de se repensar a materialidade da vida social a partir da racialidade, pois vai abarcar tanto uma observação factual através de outras questões demográficas cariocas como classe, território e religião, quanto a crítica a um consumismo que esconde a origem escravocrata, capitalista, individualista e que depõe contra si mesmo, apesar de envaidecer quem atinge.
A distinção racial/social acontece na prática, não é subjetiva e, ao mesmo tempo em que o carnaval é o tempo em que a negritude se coloca na Avenida, a realidade material fica expressa de várias formas para além (como na violência) e uma delas é na relação lazer-trabalho, tal qual o PM, também um trabalhador negro, indagou: quer fazer o meu trabalho = troca comigo de lugar, filho da puta.




Tirar fotos pra mim é captar a beleza da relação entre as pessoas e o mundo. Seja elas em si, com suas vestimentas, expressões, poses, alegria; seja em coletivo, catártico, crescente, explosivo. Mas entendo também a reserva e o que vale uma cena. Sempre me lembro dos estudos de antropologia, em que uma determinada tribo (e acho que isso deve ser comum) entendia a fotografia como um aprisionamento do espírito do sujeito. O que nos leva uma foto? Um reflexo ou a nossa inteireza? E o que ela nos dá quando ganhamos likes, mas também auto-estima? São medidas que cada pessoa tem que fazer intimamente, penso e agir ou pelo menos tentar, a partir daí. Acho que nos resta também querer entender o que são esses reflexos que demonstramos durante uma parte específica do ano, o carnaval, reflexos que no caso são sentimentos inimagináveis para boa parte do planeta, mas que diz muito o que é carnaval no Rio de Janeiro e suas relações materiais. E tão só aqui, mas não só para aqui.
@jotapedeoliveira