Tim e o Vinil – Canários do Reino

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Se não fosse o vinil e a sua reintrodução nos últimos 20 anos, a gente seria mais limitado culturalmente e menos feliz. É o que eu acho. E olha que o disco era uma questão de classe nos anos 1960 e 70 – quando quase ninguém conseguia comprar, para ser visto como algo a ser dispensado e jogado fora no final dos 1990. Nessa época, o muro já tinha caído e o que valia mesmo era o moderno vindo do ocidente. Os discos, objetos fora de venda e obsoletos, passaram a ter que ser garimpados em sebos, feiras e no “xopichão”. Muitas vezes, grandes e raras obras eram dispensadas sem qualquer medição de valor cultural, econômico ou social.

Entretanto, a imensa maioria do que foi produzido fonograficamente durante os anos da Ditadura Militar (1964-1985) sobretudo vindo da cultura regional nordestina, afro-indígena, religiosa, foi feita em vinil e ficou ali, naquele momento, esquecido e regionalizado. Preciosidades não foram digitalizado com a chegada do CD, e se foram, teve influência, justamente, do ressurgimento dessas músicas pelas carrapetas de DJs apreciadores do vinil. Exemplos desse ressurgimento são Di Mello, Os Tincoãs e a própria sequência de Racional, de Tim Maia. Obras aparentemente esquecidas e que voltaram penhas ranhuras da bolacha.

O CD, lembra dele, dispensou a eletrola e o vinil. E, hoje, o que você teria? Um CD player?

@tutavinil em ação pelo Vinil é Arte no Circo Voador (Rio de Janeiro, 2013)

Sou muito agradecido pelos camaradas do Vinil é Arte, que ainda no início do século XXI, já tinham entendido que havia muito “golden” na música brasileira que estava sendo ignorado pela indústria fonográfica massificada nas TVs e rádios do país. E essa riqueza só existia, de fato, em vinil. Era a transição do analógico, justamente, para o digital e eles eram a resistência. Tudo bem que o tráfico de .mp3 foi intenso quando surgiu Napster, SoulSeek, Emule e os caralho. Entretanto, vi eles todos, Tuta, Pedro Paiva, Brunão, Snupin e os demais, mesmo no meio de várias facilidades que os bits trouxeram, ainda assim, pegaram no pesado para carregar malas, caixas e agulhas, para fazer uma alegria real e genuína na gente, no coletivo ali na frente, com os detalhes e abrangência do vinil. Muito do que ouvimos hoje de samba rock, macumba, soul Brasil são gravações desses vinis em formato digital.

Chama o Síndico

Conhecia Tim Maia daquilo que a TV me apresentara, mas não houve nada mais fundamental quando me deixaram ouvir seus primeiros álbuns – para além dos Racional . A cultura do vinil me permitiu Coroné Antônio Bento, Cristina, Jurema, A Festa de Santo Reis, Canário do Reino e outros clássicos “esquecidos” pelas rádios e TV. E hoje, olhar para uma imensa orquestra urbana como o bloco Canários do Reino, com arranjos intensos tal qual aqueles que acompanharam a carreira do Tim, me faz pensar no quanto a famosa passagem do analógico para o digital nunca vai se completar. O material, o orgânico, a textura, por mais que pareça haver um destino, o esquecimento, pelo contrário, é o que segura, mantem, preserva a nossa alma doída de um tempo nem tão bom que a gente realmente espera não voltar mais.

Abaixo, fotos do cortejo/ensaio do bloco no sábado, 22 de fevereiro, na Cinelândia:


Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

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