Zona do Mangue

Porque no rio tem pato comendo lama? – Rio, pontes e Overdrives (Chico Science e Nação Zumbi)

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Não é só por conta do título de 1987* que a peleja entre Rio e Pernambuco se faz presente na cultura brasileira. Não se sabe ao certo quem possui razão, mas cada um puxa para si a maior criação de nosso povo: o carnaval como conhecemos. Ambos afirmam que em suas origens estão a negritude, a subversão, a vinda dos orixás e eguns às ruas, a inversão de papeis sociais e tudo o que isso significa. E foram essas práticas que moldaram a festa regada à música, dança e gente, seja lá ou aqui. Porém, o que importa, na verdade, é que do Pernambuco veio o maracatu e do Rio, o samba. Sobre isso ninguém briga, pelo contrário, soma.

E a cidade se apresenta centro das ambições
Para mendigos ou ricos e outras armações

– A cidade (CSNZ)

O bloco @zonadomangue** estreia no carnaval do Rio confirmando a fusão entre a mescla cultural riquíssima do Rio e do Recife, com a história da entidade “cidade” e mais do que isso: com o mangue e seus molambos e molambas. Ao resgatar a zona do mangue, na região da Cidade Nova/Praça XV; o projeto contribui para a necessária descentralização da folia. Além disso, o lúdico presente nas máscaras e fantasias do Zona do Mangue e, a música e seus instrumentos, deram muito sentido para a relação comunitária, que ficou muito patente no ensaio desse domingo, 16 de fevereiro. O cortejo, em boa parte, o Estácio, berço do samba, palco do carnaval de Avenida, mas com características urbanas e sociais que muitas vezes não permitem espontaneamente que suas ruas estreitas vejam a passagem de blocos por ali.

Eu sábado vou rodar
Criança de domingo
Faça chuva ou sol
Amo o meu domingo

Criança de Domingo (CSNZ)

O que se viu ontem é o que me pareceu também como uma “formação de público”. O contato de meninas e meninos com a lama, os instrumentos, fantasias e a música abriu sorrisos e deu a impressão que esse foi um dia que não sairá tão cedo da memória daquelas crianças e espero, realmente, que tenha plantado uma semente pelas artes e a expressão.

Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar – Siba

O repertório não nega suas origens e tanto marchinhas e sambas típicos do Rio, quanto Chico Science, Mundo Livre S.A., Siba, Mestre Ambrósio e a banda Eddie, também fazem parte desse cado do Recife na antiga zona boêmia carioca.


As fantasias pitorescas, meio circenses, combinadas com a lama do manguebeat, dão o tom de um carnaval em que a arte e os mistérios devem conviver com a busca pelo RE-conhecimento da cidade. Uma cidade em meio a maguezais, com seus urubus e especuladores, que fazem da fome uma estratégia de domínio. Uma cidade em que seu povo, mesmo, na miséria que é dada, ainda assim, encontra seus furos e tira da lama as batidas do maracatu que dão potência e esperançar em todas as almas, até mesmo, às sebosas.

Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro (Cidade Nova/Estácio), 16 de fevereiro de 2025
@jotapedeoliveira

* Durante quase duas décadas, Flamengo e Sport Clube do Recife brigaram na justiça para que fosse determinado o campeão nacional de 1987. Em campo, com as regras iniciais do campeonato, um time formado por, entre outros, Jorginho, Zico, Renato Gaúcho e Bebeto, o Flamengo se sagrou campeão vencendo o Internacional na final. Entretanto, em função de brigas e interesses de cartolas, as regras foram mudadas na fase semi-final. Ele passou a exigir uma segunda final entre o campeão da 1ª divisão e o da 2ª, no caso, o Sport. Nos tribunais, o clube do Recife foi o vencedor. Porém, para o futebol, a equipe histórica, base das seleções de 1990 e 1994, que ficou foi a do flamengo.

** Ensaio recomendando pelo @carnavalicia

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