Pessoas de JF

Projeto etnográfico baseado em foto e texto sobre a vida urbana e anônima da classe trabalhadora de Juiz de Fora ao longo de suas principais avenidas, indo e vindo em um seu cotidiano ora calma, ora caótico, nos pontos de ônibus a espera do transporte público ou executando tarefas. O entendimento das características daquelas pessoas que frequentam os espaços coletivos, em uma cidade nem pequena, nem grande. Uma cidade quântica com características híbridas e próprias.

As fotos e textos são postadas no Instagram @pessoasdejf, por @jotapedeoliveira. Abaixo, estão dividas por dias de pesquisa. As mais recentes no topo. A parte textual é criada de forma espontânea e a partir de referências pessoais, políticas e artísticas a partir da cena retratada. Clique no numeral para acessar as fotos por dia:

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FOTO 00: Da sombra, o olhar


DIA 12

Socorro, estamos trabalhando sem desemprego, com dignidade. Outrora o tempo era de escassez. Agora se prospera. Socorro, a vida tá andando!

Há tempos que não sou infância, já nem lembro mais do que não é bits, comandos, eletrônico. Mas ainda sou madeira, tranquilo, tranquilidade. Quero ser livre, quero ser brincante

DIA 11

Me enquandro como posso numa prosa sobre a vida. Ela anda em fila e eu me movo na magrela.

Meu brilho é ancestral. Nas tramas das dores me refiz suntuosa. Não me entrego nem me rendo à espera. Vou sim, vou alcançar.

DIA 10

Por onde vaga minha cabeça? Junta em um instante, separada o tempo todo

Já não escuto mais as vozes dessa cidade que se tornou meus sonhos perdidos. Esqueço do tempo e não produzo as alegrias de outrora. Ainda espero o dia e a condução, mas me pergunto: o que desejo ouvir?

Identidade se constrói quando se escolhe a cor do cabelo. Uma risca na diagonal, um equilíbrio que aprofunda a profundidade entre aquelas que permanecem à espreita. Rostos ‘desexpostos’, palavra nova. Não é por fé, mas respeito.

DIA 09

Entre os fatos e os feitos, me admira a pouca relevância que dou para o caminho entre o que reflito e faço. Onde quero chegar?


Trindade: A cada olhar uma direção. Uma vê o que vem. A outra, o além. A do meio, olha, mas não vê quem

DIA 08
Precisamos sempre, sempre de mais. Meu olhar se perde demais no que não vejo.

Bolsa, mochila, ovo, criança, cabelos contraste, vidas femininas


Domingo é dia! Dia de se reconhecer pela pele. Virar o irmão parido por mães distintas sob um único sol. Um brilho rubro, um brilho negro.

DIA 07

Ainda há um homem quase embaixo de mim. Que anda sozinho em seus pensamentos trôpegos pela avenida. Que não consegue deixar de ver a mesma coisa, mesmo com os olhos fechados.

O que vem? O que vem lá? É minha condução, meu caminhar? #jfpeople – @pessoasdejf registra anônimos em meio às avenidas que cortam uma cidade que é grande e pequena, média. Quântica. 

DIA 06

Me sirvo, me servo, abro portas e caminho desolado pelo fino meio fio da vida aos sábados e também nos feriados.

DIA 05

Quem chega primeiro não tem vaga assegurada na sequência da vida. A fila do mundo é funil. Quem entra?

Quem vem, quem vem lá? Vem a gente, o agente, o arauto do povo. Olhos baixos, mas nunca vazios. Cheio de mágoas, porém com gana. Andar, andar, andei sobre o grama dos dias de fama. Nova York, iu éss, cei! Meu país não foi vendido, mas minha educação, essa aí, eu sei. Não pertence a mim, a minha vitória: naique é!

DIA 04

Ainda cabemos no que viemos a construir por anos em termos de acessórios, trajes e caminhar? Um braço reto, dois entrelaçados, o outro escorado na cintura. Um casal a atravessar a vida, perpetua hábitos, modos, constâncias.

Ergue a nossa cabeça, vem com fé, a vida passa e a gente passa dela se bobear

DIA 03

São as mãos que carregam a identidade e o tempo de nossa idade. Por isso, há amor seguro entre as frestas e me sobra a liberdade nas letras.

No caminho entre as ruas há rios que nos atravessam e carregam as margens de nosso sujeito. Imersos em superfícies líquidas, um sábado à tarde, sobre a ponte da vida, há reflexão. #jfpeople @pessoasdejf

DIA 02

A expressão dessa cidade do povo é o rosto de uma mulher negra, trabalhadora, mãe, avó, pensativa enquanto espera seu destino. Não se sabe se o final ou se de início. Só a espera se faz constante singular na citá onde não frequenta barão.

Essencialmente quem habita a cidade são aquelas que, feito pedrinhas miúdas, sustentam a dignidade de uma sociedade lotada até a tampa de preconceitos, formatada até o talo por masculinismos, exploradora até as vísceras por patrões e padrões que exalam feito colônia a luta de classes desigual.

@pessoasdejf é um estudo etnográfico realizado na longa travessia de uma possível maior avenida e sobre quem é o povo e sua expressão enquanto espera o coletivo chegar.

Quem são as que dependem do transporte público?

São trabalhadoras escaladas 6 vezes na semana para um mal pago trabalho de 8 horas na firma e 16 em sua própria escala familiar.

Quem são as @pessoasdejf que estão nos pontos de transporte coletivo? Quais são suas origens? De onde e como vêm? Qual a essência desse povo?

#jfpeople

Meus detalhes ninguém me julga – #jfpeople @pessoasdejf #fotografia

Por fim, olho para frente enxergando os passos que me levaram ao amanhã – #jfpeople @pessoasdejf #fotografia

O que tanto se busca nessas ligações? #jfpeople @pessoasdejf #fotografia


DIA 01

Pessoas de JF … indo e vindo na barca cotidiana, entre o passado e futuro, visito os rostos, desejos e espera. Esperamos dias melhores. #jfpeople #fotografia

Parada LGBT+ Juiz de Fora 2025 – Rainbow Close

O que significa viver depois dos últimos dez anos, quando a onda reacionária tomou conta, literalmente, das ruas e da mente de muita gente? Em Juiz de Fora, 2025 marcou a primeira Parada LGBT+ depois de uma década de ausência. O próprio intervalo sem que um trio elétrico exaltando a liberdade de se ser quem é passasse pela principal avenida da cidade – pioneira nos direitos da comunidade LGBT+, diz muito sobre o tempo reacionário e hipócrita que ainda não passou, mas que não se parece tão feroz como há cinco, seis anos. Ainda carregamos no peito e na memória muitas marcas desse período, em que tudo andou rápido demais, porém não necessariamente para frente. E elas, infelizmente, envenenaram nossa terra. Todavia, há tempo para um novo cultivo e no sábado, 23 de agosto, foi o primeiro dia da semeadura coletiva para mexer e remexer com os corpos e coração de muita gente. Recomeço!

Por João Paulo de Oliveira (@jotapedeoliveira)


ANTES DE MAIS NADA 01: agradecer e parabenizar ao conjunto de movimentos sociais unificados em torno da causa; à querida @talliasobral do PSOL e ao Conselho Municipal LGBT+, às vereadoras de JF e deputadas mineiras que idealizaram, lutaram e fomentaram a volta da Parada ao calendário nacional e da cidade. Confira os movimentos, ativistas e parlamentares que ajudaram a promover o evento em 2025.

ANTES DE MAIS NADA 02: Caso haja sentido para você e seus amigues, faça um pix de qualquer valor para 21 97132 1982. Marque @jotapedeoliveira no Instagram. Caso queira uma das foto em alta dimensão para revelação e uso em artes gráficas, entre em contato pelo zap ou e-mail jp@joaopaulodeoliveira.com

CLIQUE NAS FOTOS PARA UMA MELHOR VISUALIZAÇÃO E PARA SALVAR EM SEU DISPOSITIVO


Um sábado sagrado e de família

Um amigo, Ivan Cunha, me lembrou do tempo quando havia um sábado de agosto sagrado em Juiz de Fora. Nossos pais, mães, tias/os, primas/os, padrinhos, madrinhas nos levavam ao Calçadão da rua Halfeld para assistir ao intenso e esperado desfile de drags – era um programa da família juizforana, precedendo durante o dia, o Miss Gay no Sport à noite. Mais tarde, já nos tempos de faculdade, a gente descia em bando para curtir a Parada LGBT+ e adorávamos a Raibow Fest. Era o dia em que se podia ser o que se quisesse, apesar da pressão e da violência e do preconceito sempre rondando.

Os três eventos, desde antes dos anos 2000, faziam da cidade um palco de liberdade e mais do que isso, contribuíu para a criação de políticas públicas que protegiam e amparavam essa comunidade como a Lei Rosa, logo no início do novo milênio e agora, mais tarde, o Conselho Municipal de Promoção e Desafio dos Direitos Humanos da População LGBTQI+, proposto e dirigido por Tallia Sobral durante sua mandata como vereadora de Juiz de Fora (2021-24) – um oásis de resistência e organização em meio a tempos espinhosos.

Inundando as almas dos caretas

É doloroso ver como, em pouco mais de uma década, muito disso mudou. Quem antes celebrava, hoje teme a reação dos reacionários locais. Os mesmos que um dia se orgulharam da festa agora, recriminam. E são justamente esses que gritam por uma “liberdade de expressão” seletiva, aquela mesma que defende um ex-presidente homofóbico e que nunca deixou de incitar violência contra quem é diferente e usou do pânico moral para, ao mesmo tempo, fomentar preconceito e violências e fazer política eleitoral.

Também pesa perceber que o comércio de Juiz de Fora se arrumou pouco para receber gente do Brasil inteiro. Faltaram bandeiras, cores, sinais de acolhimento, estabelecimentos em festa, promoções para turistas. Será o reflexo desse tempo hipócrita e careta, já que antes, apesar de um desconhecimento sobre os temas LGBT+, não havia uma franca, criminosa e quase naturalizada oposição às manifestações de liberdade?

Entretanto, o novo sempre vem, e a vontade de autonomia e liberdade persiste mesmo diante da reação conservadora da última década. Depois de três anos de muita luta por recursos e contra o reacionarismo vigente, movimentos sociais se organizaram para realizar a Parada deste ano. Assim, o 23 de agosto foi histórico, não só por conta dos dez anos de paralisia e retrocesso, mas porque aponta para uma brisa colorida que há de anunciar o soprar de um novo e renovado tempo.

Estive nas ruas registrando a alegria e com alegria pude ver pessoas de todas as idades, o que encanta, pois revela gente que nunca pode se manifestar publicamente ao lado das novas gerações que, muitas vezes, nem compreendem como se ficou tanto tempo assim no armário. Eram sorrisos diversos, ocupando a principal avenida, celebrando quem são e pedindo futuro. Algo que não diz apenas para a comunidade LGBT+, mas também para a própria cidade que parece ter se despertado após um longo e sonolento torpor de convivência nas ruas. Vi e fotografei famílias inteiras, mulheres se amando sem medo, pessoas 60+, 20-, muita gente feliz.

A pergunta que fica é: como fazer com que isso seja mais que resistência? Como transformar em celebração definitiva a passagem dos trios pela avenida? Como celebrar o que já cultivamos sem deixar que o retrocesso arranque da bacia a água da liberdade que se conquistou com tanto esforço?

TODAS AS FOTOS DA PARADA LGBT+ JF 2025

Caso haja sentido para você e seus amigues, faço um pix de gratidão ao fotógrafo e jornalista: 21 97132 1982 | marque no post: @jotapedeoliveira


João Paulo de Oliveira – jornalista, fotógrafo e esperançoso
Instagram: @jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

LEI ROSA: Lei nº 9.791 de maio de 2000, que foi pioneira no Brasil ao criminalizar a discriminação motivada por orientação sexual de pessoas homossexuais, bissexuais ou transgênero, e é considerada um marco na luta por direitos LGBTQIA+

Movimentos Sociais, ativistas e parlamentares que ajudaram a promover a 14ª Parada LGBT+ JF:

Movimentos Sociais:
Mães pela Liberdade
Transtornados
Astra
MGM
Miss Gay
Conselho Municipal LGBTQI
OAB Diversidade
Caminhada Lésbica
Comitê População de Rua
CTA – JF
Cellos BH

Ativista:
Tallia Sobral (PSOL)

Parlamentares:
Vereadora Cida Oliveira (PT)
Vereadora Laís Perrut (PT)
Vereadora Letícia Delgado (PT)
Dep. Estadual Bella Gonçalves (PSOL)
Dep. Estadual Betão (PT)
Dep. Federal Ana Pimentel (PT)
Dep. Federal Duda Salabert (PDT)

Vibrato de outono

Há uma época do ano que é única e mexe demais comigo. O outono me traz um olhar que não é para frente. Até parece que é para o alto, mas não. É pra dentro, por dentro, de dentro. Uma espera calma e atenta. Sonolenta e responsável.

É um tempo em que percebo que não tenho nada e nada é meu. Estou solto, rodeado de vazios. É quando fico sozinho com o mundo e a vida me rasga abrindo caminho e degenerando a sobra. Meu sagitário se recolhe à espera do inverno, sua contradição. Cavalga para trás e se concentra no concreto. Olha pra lua e esconde suas setas. Recolhe de mim a energia para enfrentar o tempo difícil que sempre retorna.

O que me consegue escapar no momento da diminuição não é tristeza. Tão pouco, felicidade. É um quadro estático, latente de vigor, mas paralisado. Livre, todavia impedido de ser Ícaro. Não consigo queimar minhas asas. O sol não me toca com força. Nem tenho força para ir tão alto. Recolho-me, então, no subterrâneo para olhar o silêncio do que há aí fora. Contemplo a temperatura do céu. Fria. Azul e vazia.

O que vibra no meu outono é a vontade. Bate no limite, frequenta só a superfície fina e volta. Se enche para o que virá no tempo ainda pior, mas não mais de espera.

As fotos abaixo são de vários outonos. De momentos passados em cidades de Minas, Rio, São Paulo e também, Porto Alegre, Montevidéu e Buenos Aires. Não irei identificá-las porque o tempo é o mesmo e ele anda conosco.

As almas de Jorge

Quando eu era moço, minha vó Cida me mandou entregar um bilhete escrito por ela mesma, mas que tinha vindo pelo seu santo. Era uma oração de proteção. Um trecho da reza pra São Jorge:

“Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebram sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar”

Dois mil e vinte e quatro foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Ele, inclusive, demorou para passar até mesmo quando já estava em 2025. Tive que tirar das profundezas da minha alma o vigor para não desistir. Contei com o apoio daquelas e daqueles que me amam, mas também, da medicina. Nunca fui afeito a remédios, mas em função de uma depressão que não me deixava e o medo de encarar o futuro, acabei indo pela primeira vez em décadas ao psiquiatra. Na primeira semana, o medicamento me fez o efeito contrário ao que se pretendia: me deixou ainda mais desesperado e triste. Além disso, fiquei doente e sozinho em casa. Foram três dias pelos quais não desejo pra ninguém.

Inicialmente, o que me fez sair dessa situação foi a necessidade de viajar para encontrar minha filha mais nova, mas também o efeito progressivo do remédio. Durante minha estadia fora do país, acabei perdendo as cápsulas e não tomei mais. Entretanto, alguma coisa me fez reagir e mesmo diante à incerteza do que seria o depois dessa viagem, me senti fortalecido com o amor da minha pequena. Cheguei de lá com a ideia de que o amanhã seria o amanhã e encarar a vida e suas nuances era importante não só para mim, mas pra ela também. Assim, o ano virou, veio janeiro e logo na primeira semana fui assaltado à mão armada bem perto da minha casa. Não desanimei nem quis me mudar. Além disso, percebi que não conseguiria me realocar facilmente no mercado de trabalho. Afinal, não queria mais estar onde estava antes e ao mesmo tempo, fiquei anos imerso na política partidária e disperso de labores mais convencionais na área de comunicação.

Sem dinheiro, morando no Rio, mas com uma vontade de vida enorme, tive que dar um jeito. Com a ajuda de algumas pessoas, acabei me voltando para a fotografia, arte que tinha esquecido que exercia. Já havia 10 anos, os anos da política, que nela não investia. E, ainda que não tenha me firmado nessa área, o que ela me proporcionou nesses últimos três meses fez com que aquela época de tristeza fosse mesmo um tempo necessário de reflexão e morte de um João passado que não queria mais ser.

A Zona do Mangue de Jorge

E das coisas mais fantásticas que a fotografia e sua busca me deram foi conhecer um bloco de carnaval que mexeu demais com minhas emoções e realçou minha sensibilidade de forma nítida, me dando vida, mas também, dando alegria a quem se deparava com a objetiva da câmera. Conheci o Zona do Mangue em fevereiro, no ensaio aberto do dia 16. Não estava ali contratado nem pretendia vender as fotos que fizesse. Era mesmo um exercício, uma terapia e um desafio para sair da inércia de ideias que me encontrava até então. As fotos e o texto do relato acabaram tocando os componentes do bloco e o retorno deles me deu vida e coragem para seguir perseguindo esse “novo” caminho.

Assim, recebi com muita alegria a notícia de que o Mangue sairia no São Jorge, 23 de abril, novamente no Estácio. Decidi não levar minha câmera, pois queria mesmo era aproveitar o momento pra conhecer aquelas pessoas que me deram um novo sabor pela vida. Todavia não consegui ficar inerte e com o celular em mãos aproveitei o sol pra fotografar aquelas almas tão devotas ao carnaval e ao santo padroeiro do bairro, seja ele Jorge ou Ogum. E mais uma vez, o que me encantou foi a felicidade das crianças e moradores que se encontravam com o bloco. Isso não é pouca coisa. É muito. É a força invisível que nos protege de nós mesmos. É o que faz as armas, flechas e facas caírem inertes enquanto a vida prossegue sendo perigosa.


Rio, 24 de abril de 2025
@jotapedeoliveira