Desculpa o transtorno, ainda estamos aqui, Dri

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Nesse carnaval, uma figura feminina me despertou um sentimento de deriva e solidariedade. Uma mulher que não conheci, mas reconheci que em seu entorno há muita admiração, gratidão e amor. Pelos relatos e rostos, uma artista feita da carne de carnaval e da espontaneidade da vida na cidade. Nos encontramos de alguma forma no caminho – fiquei pensando muito sobre ela e sobre essas fotos durante todo o carnaval – e, de almas dadas, fomos. Não tive dúvida disso quando, ao descer para o centro, na terça, 4, para fotografar o @desculpeotranstornobloco, encontrei seu povo esperando com sorriso e saudade, a hora de saudá-la com música, memória e amor.

Adriana ou simplesmente, Dri, era componente do Bloco e desapareceu ano passado. Um choque, uma tristeza, uma falta irreparável. Um desafino no samba, uma perda de novas memórias afetivas e efetivas. Afinal, ela não está mais aqui para o hoje. Porém, com generosidade e solidariedade ímpar, as amizades se juntaram e a tiraram do nada, do inferno gelado da ausência, recolocando-a em sua avenida preferida, a do samba, a da alegria, a do seu bloco que tanto amava. Logo que cheguei, senti que realmente Dri estava ali e o estandarte maravilhoso e sensível era prova de sua presença nesta ausência de sentido que muitas vezes têm a vida.

Ao ver os detalhes desse amor, a ausência-presença de Dri, me faz pensar que o Bloco surge da reflexão sobre a rua dominada pela especulação que não deu certo, dos grandes eventos que nos fizeram militantes na resistência entre 2010 e 2016, mas no depois, ficamos arrefecidos com o golpe, a morte de Marielle, a prisão ilegal de Lula e a eleição conveniente de um neofascista. Só nos restou a ocupação das ruas com coletivos de jovens músicos e foliões conscientes de que estar ali, sem papéis ou autorização, seria subverter aquela ordem que se configurava como dominante e irracional, tal como a passagem prematura de Dri se viu reconfigurada a partir desse desfile.

Dri, presente! Hoje é sempre!
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

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Rio de Janeiro, 04 de março de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

A Nova Bad

A vida é um desespero e não tem como negar. A maneira como a gente se organiza faz com que seja ainda mais desesperadora para alguns tipos sociais que outros. Isso também é inegável cada vez mais. Imagina você saindo do seu trabalho e de repente, toma um tiro na garupa do mototaxi? Seria porque você é preto, pobre, trabalhador? Seria por isso? Agora, imagina você em seu trabalho, um dia comum, pela manhã e de repente, uma bala encontra seu corpo, que tomba, que morre, que deixa filhos e marido? Mas você é branca, funcionária pública, médica. Todavia, a área que você trabalha é conflagrada, a polícia e o bang-bang acontecem invariavelmente. Afinal, é área de gente pobre, negra, trabalhadora. A vida é um desespero ainda maior no Rio de Janeiro.

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*este ensaio é uma homenagem à Gisele Mendes de Souza e Mello, mãe do amado Cadu. Escrevi o mesmo logo após o ocorrido: sua mãezinha foi morta dentro da unidade hospitalar em que trabalhava:

Esse pássaro bonito é o Cadu, Caduzinho, Cajuzinho. Um querido defensor dos direitos humanos que até ontem dedicava sua vida a diminuir a dor dos outros, principalmente, de mulheres que perderam seus filhos, companheiros e pais para a mão assassina do estado elitista e racista. O massacre cotidiano que crava o destino no peito de jovens negros e de suas mães, ontem, transformou a vida desse romântico (no sentido mesmo do movimento histórico do século XIX). Agora a luta é a sua própria vida. No daqui pra frente, seu coração se faz também para diminuir a própria dor, de seu irmão, pai e demais familiares.

Nós que lidamos todos os dias com nomes e histórias que quase sempre são ignoradas, sabemos o quanto a sociedade adormecida em sua hipocrisia e racismo se apontará chocada com a morte de uma médica da Marinha. Aqui não tenho como intenção fazer balanço ou dizer o que vale mais quando sabemos que o problema é o mesmo: o sistema capitalista, patrimonialista e entreguista não superou ainda os tempos de escravização e oprime e odeia pobres e pretos. E para isso mata e fere todos os dias onde vivem e trabalham.

Enquanto matar na favela só parecer caso de polícia, os donos do poder e das palavras continuarão reportando preconceitos que multiplicam ainda mais preconceitos. Temos que nos unir para acomodar a dor de todas as pessoas que perderam seus parentes e agora sobretudo, abraçar esse pássaro pra que continue a rondar os céus em busca de liberdade para os que se encontram cativos e à mercê da máquina de moer gente de Castros e Derrites da vida.

Cadu, querido, um forte abraço. Força, camarada. Estamos aqui para aliviar também a sua dor. Hoje e sempre.

Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro, 01 de março de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

Loucura Suburbana

Pena que não é loucura, é realidade! @loucurasuburbana, Engenho de Dentro.

A luta antimanicomial é um importante movimento que reúne profissionais da saúde, serviço social, militantes e usuários para a libertação dos corpos e mentes, historicamente, violentados e isolados da sociedade. E o carnaval, com sua alegria e natural subversão, é ferramenta de encontro entre a realidade e a fantasia, permitindo que sãs e insanos possam se misturar e se reconhecer como comuns.

Em 2025, o Loucura Suburbana completou 25 anos de cortejo no bairro do Engenho de Dentro, zona norte do Rio. É sempre um dos momentos mais incríveis do carnaval carioca e desperta em mim sentimentos diversos para além da folia. Entender que a música e as artes são meios de ressocialização nunca foi difícil, mas ver isso na prática traz uma esperança sincera.

O bloco se concentra no Nise da Silveira, que há tres ou quatro anos não tem mais nenhum “cliente” permanente. Esse foi um passo importante do movimento antimanicomial, conquistado ainda durante o último governo – avesso a qualquer tipo de progressismo e que apostou no confinamento como solução para tudo aquilo que não entende e vê como complexidade, vide as propostas de internação compulsória e o lobby para clínicas evangélicas de reabilitação. O Loucura então sai do Insituto de Saúde e vai em direção à praça Rio Grande do Norte. Na volta do cortejo para o Nise, muita gente fica na dúvida se aproveita e não fica por lá. Afinal, a realidade de cá fora é ainda mais cruel e insana.

Tim e o Vinil – Canários do Reino

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Se não fosse o vinil e a sua reintrodução nos últimos 20 anos, a gente seria mais limitado culturalmente e menos feliz. É o que eu acho. E olha que o disco era uma questão de classe nos anos 1960 e 70 – quando quase ninguém conseguia comprar, para ser visto como algo a ser dispensado e jogado fora no final dos 1990. Nessa época, o muro já tinha caído e o que valia mesmo era o moderno vindo do ocidente. Os discos, objetos fora de venda e obsoletos, passaram a ter que ser garimpados em sebos, feiras e no “xopichão”. Muitas vezes, grandes e raras obras eram dispensadas sem qualquer medição de valor cultural, econômico ou social.

Entretanto, a imensa maioria do que foi produzido fonograficamente durante os anos da Ditadura Militar (1964-1985) sobretudo vindo da cultura regional nordestina, afro-indígena, religiosa, foi feita em vinil e ficou ali, naquele momento, esquecido e regionalizado. Preciosidades não foram digitalizado com a chegada do CD, e se foram, teve influência, justamente, do ressurgimento dessas músicas pelas carrapetas de DJs apreciadores do vinil. Exemplos desse ressurgimento são Di Mello, Os Tincoãs e a própria sequência de Racional, de Tim Maia. Obras aparentemente esquecidas e que voltaram penhas ranhuras da bolacha.

O CD, lembra dele, dispensou a eletrola e o vinil. E, hoje, o que você teria? Um CD player?

@tutavinil em ação pelo Vinil é Arte no Circo Voador (Rio de Janeiro, 2013)

Sou muito agradecido pelos camaradas do Vinil é Arte, que ainda no início do século XXI, já tinham entendido que havia muito “golden” na música brasileira que estava sendo ignorado pela indústria fonográfica massificada nas TVs e rádios do país. E essa riqueza só existia, de fato, em vinil. Era a transição do analógico, justamente, para o digital e eles eram a resistência. Tudo bem que o tráfico de .mp3 foi intenso quando surgiu Napster, SoulSeek, Emule e os caralho. Entretanto, vi eles todos, Tuta, Pedro Paiva, Brunão, Snupin e os demais, mesmo no meio de várias facilidades que os bits trouxeram, ainda assim, pegaram no pesado para carregar malas, caixas e agulhas, para fazer uma alegria real e genuína na gente, no coletivo ali na frente, com os detalhes e abrangência do vinil. Muito do que ouvimos hoje de samba rock, macumba, soul Brasil são gravações desses vinis em formato digital.

Chama o Síndico

Conhecia Tim Maia daquilo que a TV me apresentara, mas não houve nada mais fundamental quando me deixaram ouvir seus primeiros álbuns – para além dos Racional . A cultura do vinil me permitiu Coroné Antônio Bento, Cristina, Jurema, A Festa de Santo Reis, Canário do Reino e outros clássicos “esquecidos” pelas rádios e TV. E hoje, olhar para uma imensa orquestra urbana como o bloco Canários do Reino, com arranjos intensos tal qual aqueles que acompanharam a carreira do Tim, me faz pensar no quanto a famosa passagem do analógico para o digital nunca vai se completar. O material, o orgânico, a textura, por mais que pareça haver um destino, o esquecimento, pelo contrário, é o que segura, mantem, preserva a nossa alma doída de um tempo nem tão bom que a gente realmente espera não voltar mais.

Abaixo, fotos do cortejo/ensaio do bloco no sábado, 22 de fevereiro, na Cinelândia:


Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

Cordão do Boitatá

A memória é um dom que existe mais pra gente esquecer do que lembrar, já diria o filósofo da cibercultura, Pierre Levy. Afinal, se não houvesse vazios, ninguém sustentaria viver com todo e qualquer detalhe constantemente vivo em nossa mente. Entretanto, se há algo que nos impele a lembrar e fazer memória é o ritual sagrado que acontece todos os anos nas ruas do Rio. O Carnaval é fonte de recordações das mais antigas, da infância e juventude, da alegria, da subversão, dos encontros e, porque não, de nossas referências.

O @cordaodoboitata é uma manifestação intensa e afetiva que me traz à memória, principalmente, duas pessoas que significam muito para minha vida e que, infelizmente, não estão mais por aqui. Ambos, encontrei na luta política, mas também estavam comigo na folia. Trato aqui de Chico Oliveira, nosso querido Chicão, músico dos mais talentosos, com um sorriso farto e uma amizade sincera. Chico era componente do bloco e nos deixou em 2020 de forma súbita e dolorosa, mas que se faz presente sempre que me encontro com o Boitatá e ao bloco agradeço esse misto de dor e felicidade. A outra memória, sem dúvida, é Marielle. Ela que, no último carnaval em que estava entre nós, percorreu inúmeros blocos com a campanha da Comissão da Mulher “Não é não”, presidida por Mari na Câmara do Rio, foi e é uma inspiração cotidiana do esperançar de um novo momento para a sociedade, sobretudo para socialistas, moradores de favela, mulheres, negras e negros, LGBTs e todas as pessoas que se indignam contra o estado de coisas que nos encontramos há décadas.

Foto 1: Gabi Rodrigues

Mas essas são as minhas. E o Boitatá traz mais do que relações individualizadas. Ele é coletivo e grato pela construção de nossa cultura musical sobretudo aquela que trata do carnaval, do popular. Todos os anos vemos os estandartes puxados pela cobra flamejante, protetora das florestas e, por aqui, de nossa memória. Desfilam com a gente a história que nos levou até o agora e nos inspira para seguirmos firmes na luta pelas ruas, pela vida, pela alegria.

Abaixo, os registros do cortejo do Cordão do Boitatá realizado no último domingo, 23, no centro do Rio. Ele volta no próximo domingo, no tradicional palco da Praça XV. Se der, não perca essa memória!

Comissão de Frente

Percussão

Sopros


O Cordão


Fotos feitas com a lente Canon .50mm
Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 2025
@jotapedeoliveira | @50mmdecarnaval

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